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Ruben Ferreira Duarte
Tutor

entrevista

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Ruben Ferreira Duarte
Tutor

Ruben Ferreira Duarte, Lead UX Designer na TicAPP | AMA e tutor do programa Front-end Development e do Workshop Design Systems with Sketch na EDIT. Lisboa. Fica a conhecê-lo melhor nesta entrevista.

O UX e o UI são tão só duas ferramentas que podem contribuir para produtos e por consequência, melhores negócios. Negócios realmente relevantes para o dia-a-dia das pessoas.

E.

Porquê a área de UX&UI? Fala-nos um pouco sobre o teu percurso profissional.

R

Pensando bem, não sei se sei responder de forma muito convincente à pergunta “Porquê a área de UX/UI?”. Aliás se olhar com clareza, não sei se em algum momento escolhi a área, ou se não foi uma consequência mais ou menos natural de pequenas decisões que fui tomando ao longo do meu percurso, ao mesmo tempo daquilo que foi a própria evolução da área do design nos últimos anos (que foi imensa).

Estudei Design Multimédia na Universidade da Beira Interior. Numa época que a Covilhã e muito poucas outras escolas tinham “multimédia” como nome de um curso superior. Até entrar no curso nem conhecia sequer à Covilhã. Hoje sei, que a decisão de ir para a UBI, foi das mais importantes que tomei. A Universidade está inserida num contexto muito favorável. Entrei na Universidade relativamente tarde, para aquilo que seria convencional. Mas isso foi importante, porque quando entrei levava comigo uma série de conhecimentos e experiências. Quando fui para a Covilhã, já fazia alguns projetos por conta própria, muitos deles digitais, numa época em que o HTML5 não era o padrão na indústria e ainda se acreditava que o Flash e o AS2 iam salvar o mundo.

Nessa altura, sabia claramente duas coisas: queria trabalhar em design e queria trabalhar em internet. A minha família e os meus amigos, costumam dizer que sou de ideias fixas e acho que neste caso se aplica perfeitamente. Esta escolha, que na época se chamava de web design, levou-me a trabalhar ao longo dos anos em vários tipos de estruturas, como por exemplo a Euro RSCG 4D (atualmente Havas), o Playme Studio em Castelo Branco e mais tarde e durante algum tempo por conta própria.

Pelo caminho, apareceram no design digital novas tendências, alguns termos tornaram-se padrão na indústria (como é o caso do UX/UI) e foi ganhando força uma consciência que hoje é inquestionável naquilo a que chamamos de Digital Product Design, que o design em si é cada vez menos um trabalho de “one man show” mas sim um desafio de equipa, que precisa da colaboração entre diferentes perfis de profissionais, cada qual com o seu valor muito particular.

Esta consciência, passados alguns anos a trabalhar por conta própria, fez com que fosse para a Innovagency, uma agência digital, focada exclusivamente no pensamento, desenho e desenvolvimento de experiências digitais. A experiência da Innovagency, para além de um espaço de aprendizagem imenso, representou também uma viragem importante na forma de encarar o digital. Por beneficiar de um ecossistema muito particular, onde as estratégias de negócio são pensadas ao lado do desenho da experiência e interface, sempre em colaboração com a dimensão tecnológica, a empresa possibilita que facilmente possamos participar em diferentes fases do projeto. Esta participação transversal facilita em muito, o contributo também da área de UX/UI na construção daquilo que será a proposta de valor do negócio digital, que possamos estar a construir no momento. Aqui tive a oportunidade de trabalhar como pessoas extramamente talentosas que em muito contribuíram para a visão que tenho do digital hoje.

Passados pouco mais de dez anos a trabalhar no lado das agências e ateliers, senti que precisava de um desafio diferente. O desconforto é uma característica importante de qualquer área de competência da criatividade e também um bálsamo importante para a evolução pessoal. Por isso mesmo, decidi embarcar num desafio completamente diferente, desta feita no TicAPP o Centro de Competências Digitais da Administração Pública, uma equipa que integra a AMA a Agência para a Modernização Administrativa.

E.

Quais os maiores desafios com que lidas atualmente enquanto profissional?

R

Pensar, desenhar e desenvolver produto digitais, seja para que área de negócio for, é acima de tudo um desafio de colaboração e compreensão.

Compreensão claro do negócio e dos utilizadores, mas antes de mais das muitas equipas com que trabalhamos no dia-a-dia. É importante no meio desta colaboração entre equipas, perceber a pessoa que está do outro lado e que também dará um contributo muito valoroso para o resultado final do projeto. Este é um desafio bem mais difícil do que se possa imaginar.

Muitas vezes uma mesma equipa de projeto digital pode reunir diferentes perfis de profissionais. Designers e developers, claro. Mas também estrategas, consultores, marketers, economistas, advogados, jornalistas… E encontrar uma linguagem comum entre todos estes perfis nem sempre é fácil. É um desafio imenso criar uma base de trabalho transversal, que todas as pessoas entendam e possam dar o seu contributo, que é para o projeto fundamental.

O “design” deixou de ser só dos designers. Hoje em dia muitos profissionais podem e devem se envolver no processo criativo, não porque estejamos simplesmente a criar uma “obra de design”, mas porque no final do dia, estamos sim a desenhar negócios, neste meio por intermédio do digital.

E.

Na tua perspetiva, as empresas/marcas em Portugal têm aproveitado todo o potencial de UX&UI? Podes dar alguns exemplos que consideres de sucesso?

R

Acredito muito que Portugal, vive um contexto fantástico no que toca à prática do UX/UI. Temos em Portugal algumas empresas com um caminho muito valoroso em qualquer uma destas áreas. Contudo, é também interessante perceber que muitas dessas empresas, que começaram em alguns casos como startups, trabalham fundamentalmente para um mercado global. É importante ter noção que temos a trabalhar em Portugal, profissionais portugueses que poderiam fazer a diferença em qualquer equipa de UX/UI do mundo.

Mas, pessoalmente acho que ainda é muito cedo para tentar perceber o impacto, o real impacto, do UX/UI naquilo que são os negócios das marcas em Portugal. Ainda agora começamos o caminho. Ainda assim, temos já alguns bons exemplos de negócios que podem facilitar em muito a vida das pessoas no dia-a-dia e que exploram o digital como ferramenta.

Por exemplo, dificilmente alguém que utilize o carro em Lisboa, precisará de ir meter uma moeda no parquímetro. A relação com o nosso banco muito provavelmente já será quase toda digital (embora a pagar taxas nas transferências daquelas aplicações que realmente facilitam a vida às pessoas). Hoje em dia já é possível fazer o Cartão Viva no momento num quiosque sem ter que ir para uma fila de espera. Não estamos muito longe de não ter que dar manualmente as leituras dos nossos contadores de gás e electricidade todos os meses. Entregar o IRS pela internet está cada vez mais simples.

Tudo isto são experiências. Tudo isto são exemplos onde o UX/UI tem tido ao longo dos anos um contributo importante em Portugal naquilo que diz respeito ao seu objetivo principal: facilitar a vida do dia-a-dia das pessoas.

E.

Quem trabalha nesta área precisa de estar constantemente atualizado. Que plataformas ou recursos utilizas com este objetivo?

R

Para se trabalhar em digital, costumo dizer que são precisas essencialmente duas coisas: tempo e cultura.

Tempo claro está, porque o processo evolutivo é ainda uma coisa que requer tempo. Muitas vezes sinto que andamos simplesmente à procura de poções mágicas que de um momento para o outro nos vão ensinar tudo o que precisamos saber para trabalhar em UX/UI. Não sei se vou dar uma grande novidade, mas isso não vai acontecer. É preciso tempo, mais ou menos já depende de cada um, para explorar, questionar, testar, fazer, refazer e aprender. É preciso mesmo muito tempo. Existem alguns atalhos é certo, mas tempo vamos precisar sempre.

Cultura, porque nenhum profissional é uma ilha a viver e trabalhar fechado em si mesmo. É preciso manter sempre aquela curiosidade de descobrir quem está a fazer o quê, que ferramentas novas estão em alta, que projetos poderão ser importantes descobrir, etc. Sendo que tudo isto acontece a uma velocidade vertiginosa. Hoje em dia, a partilha de conhecimento é massiva, temos cada vez mais fontes, cada vez mais referências. Isto lança a cada um de nós o desafio da escolha. Saber o que pode ser importante ler ou não. Todos temos um tempo finito no nosso dia-a-dia e a escolha é cada vez mais uma ferramenta de gestão de tempo importante.

Naturalmente a internet é um espaço de referências fantástico. Desde algum tempo que para gerir a leitura de todas estas fontes de informação, que utilizo uma ferramenta que até se poderia considerar meio vintage, os Feed RSS. Costumo utilizar uma ferramenta chamada Feedly, onde organizo os RSS de todos os sites que tenho interesse e assim gerir o que ler e quando ler. É uma maneira de independentemente do tempo que possa ter em cada dia, conseguir manter o controlo do que está por ver.

E.

Qual é o teu método de ensino para partilhar conteúdos e conhecimento, na EDIT.?

 

R

Existem dois conceitos que são sempre importantes para mim, quando em alguma ocasião tenho que partilhar algum tipo de conhecimento, são eles a humildade e simplicidade.

Humildade porque tenho a consciência clara, que independentemente das experiências porque possa ter passado até aquele momento, a partilha é uma estrada com dois sentidos. Cada pessoa encerra em si um sem fim de experiências, que se formos capazes de genuinamente ouvir, também será uma aprendizagem muito importante.

Por outro lado, a simplicidade no sentido que o desafio não está em partilhar tudo o que possa saber sobre um determinado tema. O desafio está sim, verdadeiramente, em ser capaz de organizar de alguma forma todos os conteúdos sobre um tópico numa linha e experiência pedagógica lógica, que facilite a aprendizagem de quem comigo partilha aquele momento.

E.

Por fim, e na tua opinião, que características deve ter um bom profissional de UX&UI Design para que possa diferenciar-se neste mercado tão competitivo?

R

Eu tenho sempre muito cuidado com as “recomendações”. Quem trabalha em digital à tempo suficiente sabe que existem muito poucas verdades absolutas. O que funciona num determinado contexto, pode perfeitamente não fazer sentido nenhum noutro.

Mas, se valer de alguma coisa, existem duas coisas que me parecem cada vez mais relevantes num perfil daquilo a que chamamos hoje de UX/UI Designer (que no futuro muito provavelmente terá outro nome qualquer). Esses dois pontos são: sensibilidade para o negócio e a capacidade de comunicação.

Acredito muito que o trabalho do UX/UI Designer não é fazer “bonecos” mas sim ajudar a pensar e desenhar negócios, colocando a pessoa (mais que simplesmente o “utilizador”) no centro do processo de tomada de decisão. Se tivesse que referir uma área que pode ser importante um designer explorar, diria claramente estratégia de negócio. O UX e o UI são tão só duas ferramentas que podem contribuir para produtos e por consequência, melhores negócios. Negócios realmente relevantes para o dia-a-dia das pessoas.

A somar à sensibilidade de negócio, a capacidade de comunicação é outra das características que se tornam cada vez mais importantes em qualquer perfil de designer. A missão é cada vez mais multidisciplinar e isto faz com que tenhamos que colaborar com outros perfis de profissionais. É fundamental conseguirmos não só estabelecer uma base de diálogo comum com todas essas áreas, mas também conseguir partilhar o processo de trabalho em que acreditamos. Nem sempre é fácil explicar o caos criativo que acontece na cabeça de um designer, mas quem tiver essa capacidade vai claramente facilitar em muito a colaboração com outras áreas do conhecimento.