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André Covas
Tutor

entrevista

André Covas
Tutor

O tutor da EDIT. Porto é Designer na Miguel Palmeiro Designer e guitarrista dos Peixe-Avião. Assumindo a importância da disciplina e planeamento na gestão destes dois mundos, André Covas salienta a dedicação, clareza e caráter como os valores pessoais que pretende refletir nos seus projetos de design.

Muitas vezes a resposta está escondida algures na pergunta, portanto, estudar o cliente/utilizador, o seu contexto, expectativas, desejos, receios, concorrentes, etc.

E.

Fala-nos um pouco do teu percurso profissional e da tua rotina de trabalho.

A

Licenciei-me em Design pela universidade de Aveiro em 2008. Em Março de 2009 integrei a equipa de design de comunicação da ALERT Life Sciences Computing, onde desenhei identidades corporativas e webistes para clínicas e associações médicas. No final de 2010, depois de uma apresentação ao CEO, formei, com outros 3 colegas, uma área de desenvolvimento de mobile apps para saúde. Em 2012 fiquei responsável por essa área de desenvolvimento, que entretanto tinha ganho alguma dimensão dentro da empresa.

2015 foi um ano de ruptura profissional: passados quase 6 anos, deixei a ALERT para integrar o gabinete de design do Miguel Palmeiro, com quem tinha já trabalhado anteriormente.

Paralelamente, fui desenvolvendo alguns projectos enquanto designer freelancer, como a criação de uma editora musical independente, chamada PAD, a comunicação do festival de musica electrónica Semibreve, ou o design da programação artística Expedição, trabalhei com a Casa da Música, e desenvolvi trabalho para algumas iniciativas culturais.

O meu dia de trabalho começa às 9h00 com um café enquanto revejo a minha lista de afazeres. Utilizo algumas ferramentas que me ajudam a manter focado e organizado, como o Toggle, para o time-tracking, o Producteev, para a gestão de projectos e o Google Calendar para marcar compromissos e rotinas. Utilizamos a Dropbox para trocar ficheiros entre a equipa e confiamos na plataforma para preservar os nossos projectos intactos. Tentamos sempre incluir algum tempo no nosso dia-a-dia para fazer algum r&d.

Pelas 18h30 saio do gabinete rumo aos outros projectos, seja para um ensaio com a banda, para uma reunião com um cliente ou para uma sessão de trabalho, em casa, ou num café tranquilo.

E.

Como concilias a tua carreira na música com o design?

A

Com alguma disciplina e planeamento antecipado. Felizmente todos os membros da banda são bastante ocupados, pelo que necessitamos mesmo de nos organizarmos com antecedência, seja para ensaios, gravações, concertos, etc. Trabalhamos também com pessoas que nos ajudam nas tarefas mais chatas e logísticas da banda, para que nos consigamos focar no essencial.

E.

A música tem alguma influência no teu processo criativo? De que forma?

A

Na música, a liberdade criativa é quase total. Raramente tenho que responder a um problema efectivo, ou estudar um contexto para me aproximar dele, como faço constantemente enquanto designer. São abordagens completamente distintas em termos de criação.

Se existir alguma contaminação, será mais na abertura do espectro de possibilidades, no sentido em que posso encontrar respostas para problemas de design, nos mesmos sítios onde posso encontrar influencias musicais, como o cinema ou as artes plásticas.

E.

Quais foram as maiores inspirações que te levaram a escolher esta profissão?

A

Quis seguir design, inicialmente mais pela via do design industrial/produto. Foi algures durante o curso que me fui entusiasmando mais pelas questões gráficas, da marca, da experiência. Mas as questões da ergonomia, da usabilidade, da coerência sempre me pareceram basilares, em qualquer que seja a aplicação: de um sistema de sintética, a uma cadeira, a uma tipografia, a uma aplicação para o iPhone. Mas, ainda durante a adolescência, as entidades que me fizeram olhar para os objectos de outra forma, foram o casal Eames e o designer alemão Dieter Rams, algumas marcas como a Vitra e alguns pensadores como o Buckmeinster Fuller.

E.

E hoje em dia? Quais são as tuas maiores fontes de inspiração?

A

Os “clássicos” continuam a ser as minhas principais fontes de inspiração: Massimo Vignelli, Paul Rand, Milton Glaser, Weingart… Sigo também o trabalho de alguns gabinetes como a Pentagram, a Experimental Jetset, o estúdio Spin, o Folch, e vou-me mantendo a par do estado da arte através de alguns sites e revistas que tenho como referência.

E.

O que consideras ser a parte mais importante do teu processo de de desenvolvimento e criação de design?

A

A fase inicial de pesquisa e desenvolvimento é, para mim, sem dúvida, a fase mais importante de qualquer projecto. Muitas vezes a resposta está escondida algures na pergunta, portanto, estudar o cliente/utilizador, o seu contexto, expectativas, desejos, receios, concorrentes, etc e numa segunda fase, tentar sair do contexto e ir buscar soluções a um universo mais alargado que aquele que é familiar ao contexto do cliente, são muitas vezes a parte mais importante e mais demorada do projecto.

 

E.

Quais são alguns dos valores pessoais que tentas ver refletido no teu processo de design?

A

Dedicação, atenção ao detalhe, clareza, caráter.

E.

Como é que te manténs atualizado no que concerne às tendências?

A

 

Recorro a alguns sites, como o Brand New, Eye on Design, It’s Nice That, Little Big Details, Site Inspire, o blog da Creative Review, sigo algumas coisas no Pinterest e leio revistas como a Creative Review, a Eye ou a Monocle. Mais fora do campo do design, sigo o Arch Daily, a Wired, Wait But Why, leio a National Geographic e sou um utilizador compulsivo da aplicação Pocket, que me vai sugerindo outro material das mais variadas fontes.

E.

Quando inicias um projeto, quais são primeiros processos que desenvolves?

A

Depois da fase da pesquisa e exploração, quando já se deu o momento “heureca”, a criação de um sistema o mais abrangente, funcional e inteligível possível é o passo mais importante do projecto. Muitas vezes, este sistema é tão importante, que se torna a peça em si. São estas regras que, se bem desenvolvidas, permitem a certa altura, que o projecto tenha continuidade autonomamente, seja um site, uma marca, etc.

E.

Achas que os designers de interface deviam desempenhar um papel mais importante no desenvolvimento de estratégias de comunicação como um todo?

A

 

Acho que a questão da experiência é cada vez mais pertinente. Com a crescente profusão de meios e de dispositivos, de possibilidades, a experiência é aquilo que une todo o projecto: do anúncio da revista, à aplicação de booking, ao tratamento da recepcionista, à sinalética do edifício, à decoração do quarto do hotel, etc.

Os designers de interface têm um papel cada vez mais activo, tendo os principais meios de comunicação transitado para o mundo digital, mas as questões basilares do design serão sempre aplicáveis, e numa altura em que as empresas se encontram tanto numa realidade física, como, cada vez mais, numa realidade digital, a questão da experiência global está cada vez mais presente.

E.

Podes destacar um ou dois exemplos de plataformas digitais com interfaces bem delineadas e que consideres ser uma boa referência?

A

As plataformas que mais gosto, são aquelas que mais utilizo. As questões de estilo são importantes, mas as questões de moda/tendência nem tanto, a não ser que estejamos a falar de projectos com um tempo de vida reduzido, onde faz sentido explorar um desenho que possa ser mais “efémero”.

Nesse sentido, utilizo sites como o Feedly, o Pocket, o Pinterest, o Facebook, a Amazon, o Google DriveSão sites que são já quase “invisíveis”, de tão essenciais que são. Muitas das vezes as opções de interface mais estudadas, optimizadas e sistematizadas são encontradas nestas plataformas que usamos diariamente e não nos sites mais trendy que vão aparecendo nos blogs de design.

E.

E trabalhos teus? Quais foram os que deram mais gosto trabalhar/participar?

A

Na ALERT desenvolvi uma plataforma para tablet para Assistentes Comunitários de Saúde. São membros de comunidades desfavorecidas do Brasil que recolhem dados de saúde das comunidades em que se inserem e que os passam às unidades de saúde locais. A recolha destes dados é essencial, porque funciona como estudo demográfico das favelas, é um primeiro levantamento médico (mas não clínico) da comunidade e os centros de saúde usam estes dados para receberem financiamento estatal à medida da comunidade que realmente cobrem. Os processos eram escritos em papel, de uma forma muito desorganizada, portanto o primeiro desafio foi informatizar da melhor forma os formulários. Sabíamos também que os assistentes de saúde não eram utilizadores de smartphones nem tablets, portanto tínhamos que assegurar que pessoas sem conhecimento prévio da tecnologia conseguissem usar autonomamente a aplicação. Observar de perto como se processam os registos e como utilizavam a aplicação, foi fundamental. Por fim, houve uma série de condicionantes tecnológicas interessantes a resolver.

Foi um projecto muito completo e ambicioso, que acabou por resultar muito bem e por mudar realmente a vida, tanto das comunidades das favelas, como dos assistentes sociais de saúde.

Um outro projecto que me deu muito gozo, foi o Expedição, em que durante um ano e meio, desenvolvi dezenas de materiais gráficos para exposições, ciclos de performance, instalações e residências, e que me permitiu ter um contacto muito próximo com a comunidade artística e, por outro lado, explorar uma série de coisas que, até então, nunca tinha conseguido explorar.

E.

Dá-nos a tua opinião daquilo que achas que vai ser tendência no design digital.

A

O Design dará sentido, questionará e desenvolverá as tendências tecnológicas actuais. Nesse sentido, há duas grandes tendências que certamente mudarão o paradigma do design digital: a primeira é a realidade aumentada e a transposição de barreiras do mundo digital para o mundo analógico, seja através de gadgets, da chamada “internet of things”, etc; e a segunda tendência é a da inteligência artificial que está em rápida evolução. A junção destas duas tendências abrirá portas para novos tipos de experiência e de interface que sairão inclusivamente dos limites do ecrã.

E.

Tens alguma meta a cumprir nos próximos tempos?

A

Essencialmente evoluir, a nível pessoal, profissional, espiritual, etc, e arranjar estratégias para ganhar tempo para mim, seja para viajar, ler, ver filmes, ouvir música… ou para desenvolver projectos pessoais que tenho vindo a adiar…

E.

Indica dois livros e dois websites de referência para quem quer aprender mais um pouco sobre este tema.

A

Livros obrigatórios:Design of Everyday Things”, de Donald A. Norman, “Don’t make me Think” de Steve Krug e “Design as Art” de Bruno Munari.

 

Sites recomendados: Site Inspire, Little Big Details e Eye on Design.

E.

O que gostas de fazer nos teus tempos livres?

A

Ouvir música atentamente, ler, passear sem destino e descobrir partes da cidade que não conhecia, estar na conversa com amigos, assistir a concertos, fazer música, ver filmes, visitar museus e exposições, viajar, comer bem e sem pressa, não fazer nada.

E.

Podes deixar um conselho para os nossos alunos que pretendem entrar nesta área?

A

Estejam muito atentos ao que de bom e de mau se faz. Tentem perceber porque é que um interface é bem sucedido ou mal sucedido. Experimentem, façam projectos por conta própria para ganharem experiência e para construírem portfolio.

Se querem fazer design de interface, não se foquem demasiado no universo do design de interface. As melhores fontes de inspiração encontram-se muitas vezes fora do espectro que estão a trabalhar, por isso tentem vivenciar e absorver o máximo possível.

Acompanhem as tendências da área, mas não se deixem influenciar em demasia por questões de moda, pois estas são passageiras, e algumas vezes, contra-producentes.

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